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segunda-feira, 20 de julho de 2026

As Igrejas Batistas e o Sustento Pastoral

As Igrejas Batistas e o Sustento Pastoral

Os Batistas e o Sustento Ministerial
Imagem gerada por IA

Pr. Cleber Montes Moreira
“Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho.” (1 Coríntios 9.14)

Introdução

O fato que narro a seguir ocorreu quando eu ainda era bem jovem e iniciava meu curso de teologia. Eu era um dos membros fundadores de uma igreja cujo pastor já era aposentado. Isso foi na época do governo de José Sarney, quando o Brasil sofria com a hiperinflação. Para se ter ideia, o pico inflacionário atingiu cerca de 84% ao mês em março de 1990, já no final do mandato, com inflação acumulada em 12 meses em torno de 4.854% ao ano.

O salário perdia seu valor de compra tão rápido que quem o recebia pela manhã tinha que ir logo ao mercado para conseguir realizar a compra do mês, e as maquininhas de remarcação de preços trabalhavam sem parar. Para que houvesse, no final do mês, a reposição da inflação, o governo criou, durante o Plano Cruzado em 1986, o chamado “gatilho salarial”: sempre que a inflação acumulada atingisse ou ultrapassasse 20%, os salários eram automaticamente reajustados em pelo menos esse mesmo percentual (20%), sem necessidade de negociação imediata. A ideia era impedir que a renda do trabalhador fosse corroída entre um dissídio e outro; as diferenças adicionais ficariam para as negociações normais das categorias.

Nesse período, o pastor da igreja recebia a reposição salarial de sua aposentadoria, mas a igreja não lhe concedia nenhum reajuste da prebenda, que era fixa, de modo que, muitas vezes, o dízimo de sua aposentadoria era maior do que o que recebia como sustento ministerial.

Para pôr fim àquela injustiça, certa ocasião, eu propus em assembleia que a igreja oferecesse ao pastor o que estivesse au seu alcance, e que esse valor fosse atualizado mensalmente. Porém, um diácono se levantou e disse que isso era “secularizar a igreja”. Minha palavra foi vencida; afinal, eu era bem jovem e o diácono, bem vivido.

Durante meus 37 anos de ministério pastoral, as igrejas por onde passei, com exceção de uma, sempre reajustaram anualmente a minha prebenda. Elas foram justas comigo. Mas, infelizmente, ainda há aquelas que, por falta de visão, de amor ou por mero legalismo, não sustentam dignamente seus obreiros. Elas se esquecem de que a nossa justiça deve exceder a do mundo.

Sustentar dignamente o pastor não é “secularizar a igreja”, mas cumprir, em amor, um dever bíblico.

A Declaração Doutrinária da CBB e o sustento pastoral

Há muito a questão do sustento pastoral tem sido motivo de debates, tensões e, muitas vezes, incompreensões. Em muitos contextos, a igreja local vive o contraste entre o ideal bíblico e doutrinário — de que o ministro da Palavra deve viver do Evangelho e dedicar-se integralmente ao seu chamado — e a realidade concreta de recursos limitados, igrejas pequenas e situações em que o pastor precisa acumular atividades seculares para manter sua família. Não se trata apenas de um tema administrativo ou financeiro, mas de uma questão profundamente espiritual, ligada à obediência às Escrituras e à compreensão que a igreja tem de sua responsabilidade diante de Deus.

Os batistas da Convenção Batista Brasileira dão ao assunto tratamento claro. Ao abordar o “Ministério da Palavra”, a Declaração Doutrinária da CBB afirma que Deus chama e separa certos homens para o serviço distinto e singular do ministério da Palavra, e que o pregador do Evangelho “deve viver do Evangelho”, cabendo às igrejas a responsabilidade de cuidar e sustentar seus pastores de maneira adequada e digna. Essa afirmação não é um detalhe periférico, mas uma aplicação direta de textos como Mt 10.9–10, Lc 10.7, 1Co 9.13–14 e 1Tm 5.17–18, que expressam o princípio de que quem se dedica ao serviço da Palavra deve ser sustentado pela congregação que se beneficia desse ministério.

Ao lado da doutrina do “Ministério da Palavra”, a Declaração Doutrinária apresenta a doutrina da “Mordomia”, lembrando que Deus é o Criador e Dono de todas as coisas, que todas as bênçãos procedem dEle e que o crente é mordomo de tudo quanto recebe. Nessa perspectiva, dízimos e ofertas não são apenas práticas devocionais, mas o plano específico de Deus para o sustento da sua obra, incluindo o ministério pastoral, missões e beneficência. Assim, o sustento do pastor não é um favor opcional, nem uma concessão ocasional, mas parte da própria vocação da igreja como comunidade de mordomos fiéis.

A Bíblia e o sustento pastoral

A base bíblica para o sustento pastoral é ampla e coerente. No Antigo Testamento, Deus determina que os levitas, separados para o serviço religioso, não possuam herança de terra entre as tribos, mas sejam sustentados pelos dízimos e pelas ofertas do povo. Textos como Nm 18.21–24 e Dt 12.19, entre outros, estabelecem o princípio de que aqueles que servem no templo vivem daquilo que é consagrado ao Senhor. Em termos de estrutura, o Novo Testamento não reproduz exatamente o sistema levítico, mas conserva o princípio espiritual: quem se dedica ao Ministério da Palavra deve ser sustentado pela congregação.

No Novo Testamento, esse princípio aparece de maneira ainda mais explícita nas palavras de Jesus e nas orientações apostólicas. Cristo, ao enviar os seus discípulos, declara que “digno é o trabalhador do seu alimento” (Mt 10.10) e “digno é o obreiro de seu salário” (Lc 10.7), afirmando que aquele que serve na obra não precisa carregar, sozinho, o peso material de sua missão. Paulo, in 1 Coríntios 9, argumenta longamente em favor do direito de quem prega o Evangelho viver do Evangelho, comparando o ministro aos soldados, agricultores e pastores que usufruem do fruto de seu trabalho, e conclui que “assim ordenou também o Senhor aos que pregam o Evangelho, que vivam do Evangelho” (v. 14). Passagens como Gálatas 6.6 e 1 Timóteo 5.17–18 reforçam, em linguagem clara, que quem é instruído na Palavra e quem governa bem a igreja deve ser honrado, inclusive materialmente, por essa tarefa.

Essa leitura bíblica é acolhida pelos batistas brasileiros em sua Declaração Doutrinária. Ao tratar do “Ministério da Palavra”, o documento vincula o chamado pastoral à necessidade de dedicação total e afirma que o pregador do Evangelho deve viver do Evangelho, indicando que o sustento é parte do reconhecimento que a igreja faz do chamado e da função do pastor. A doutrina da “Mordomia”, por sua vez, coloca o sustento pastoral dentro da responsabilidade de cada crente, que administra seus bens à luz da graça de Deus e contribui para a manutenção da obra e do ministério. Em conjunto, essas duas doutrinas formam a base teológica para uma compreensão madura e responsável do sustento pastoral na perspectiva batista.

O significado de “dupla honra”

Entre os textos mais citados nesse debate está 1 Timóteo 5.17–18, onde Paulo escreve: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina”, e em seguida cita a Escritura: “Não ligarás a boca ao boi que debulha” e “digno é o obreiro de seu salário”. Aqui, o apóstolo une duas dimensões de “honra”: o reconhecimento espiritual e o sustento material. O termo traduzido por “honra” pode indicar respeito e valor atribuído, o que inclui, no contexto, a ideia de provisão financeira.

Falar in “dupla honra” é, portanto, reconhecer que o pastor fiel — que governa bem e se dedica à Palavra e ao ensino — merece tanto elevada consideração da igreja quanto sustento justo e adequado. Não se trata de culto à personalidade ou de privilégios arbitrários, mas de reconhecer o peso do ministério e a necessidade de não sobrecarregar o pastor com preocupações materiais que poderiam prejudicá-lo ou afastá-lo das tarefas espirituais. Na perspectiva batista, a expressão “adequada e dignamente”, utilizada na Declaração Doutrinária ao falar do sustento dos pastores, dialoga diretamente com essa noção de “dupla honra”: estima, respeito e obediência, acompanhados de apoio concreto.

O ideal e o real: dedicação integral e “fazedores de tendas”

Ao olhar para a prática das igrejas, é preciso reconhecer a tensão entre o ideal e o real. O ideal bíblico e doutrinário, como visto, é que o pastor se dedique integralmente ao ministério da Palavra e viva do Evangelho, sendo sustentado pela igreja. Contudo, em muitos contextos, sobretudo em congregações pequenas e sem muitos recursos, a realidade financeira impõe limites. Nessas situações, não é raro encontrar pastores que, à semelhança do apóstolo Paulo em alguns momentos, tornam-se “fazedores de tendas”, acumulando trabalho secular com o exercício do ministério pastoral.

É importante notar que Paulo, ao trabalhar com suas próprias mãos, não negava a legitimidade do sustento pastoral; ele, ao contrário, afirmava o direito de viver do Evangelho e destacava que renunciava a esse direito em circunstâncias específicas, por motivos missionários e pastorais. A exceção não revoga o princípio (At 18.1–4; 1Co 9.6–15; Fp 4.14–18). Assim, pode acontecer de uma igreja não ter condições de sustentar o pastor integralmente; nesses casos, a solução pode ser um ministério em tempo parcial, um arranjo transitório ou um modelo de “fazedor de tendas”. Porém, o ideal bíblico continua sendo um desafio: quando a igreja amadurece e cresce em mordomia, é chamada a caminhar na direção de libertar seu pastor para dedicação total ao ministério, sempre que isso lhe for possível.

No contexto dos batistas brasileiros, essa tensão também se manifesta. A doutrina permanece — o pregador do Evangelho deve viver do Evangelho —, mas a realidade econômica pode exigir criatividade e paciência. O ponto decisivo é que a igreja não se acomode a um modelo de pastor sobrecarregado e mal sustentado por falta de visão espiritual, quando, na verdade, poderia reorganizar sua realidade financeira e sua mordomia para honrar melhor seu ministro.

Prebenda, benefícios e ausência de vínculo empregatício

Ao falar de sustento pastoral na prática das igrejas batistas, é comum o uso de termos específicos. Em vez de “salário”, utiliza-se normalmente a palavra “prebenda”, ou outros termos adequados, para designar o valor destinado ao sustento do pastor. A escolha do termo não é apenas semântica: procura enfatizar que a relação entre pastor e igreja não é de empregador e empregado, e sim de chamado ministerial reconhecido e sustentado pela comunidade. A prebenda é uma forma de provisão, não um salário no sentido estritamente trabalhista.

Além da prebenda, as igrejas costumam organizar benefícios que expressam cuidado pastoral. Entre eles, podem incluir casa pastoral ou ajuda de aluguel, plano de saúde, auxílio para transporte, apoio à formação teológica contínua, descanso anual (férias), períodos de descanso mais longos (semestre sabático, por exemplo), contribuição para o INSS (Previdência Social) e, em alguns casos, um Fundo de Garantia por Tempo Ministerial (FGTM), inspirado na lógica do FGTS, mas ajustado à realidade eclesial. Tudo isso é decidido conforme a capacidade financeira e a compreensão de mordomia de cada igreja, sempre sob o princípio de que o pastor é um servo de Deus e que a comunidade tem a responsabilidade espiritual de cuidar de seu bem-estar.

Não há vínculo empregatício entre igreja e pastor. Em alguns casos, temos visto pastores formalizando-se como MEI (Microempreendedor Individual), constituindo CNPJ para receberem seus proventos e emitirem nota fiscal para as igrejas. Do ponto de vista jurídico e tributário, essa prática é problemática: a relação pastoral não se enquadra nos requisitos legais de prestação de serviços empresariais, e o uso do MEI para mascarar o sustento ministerial pode configurar irregularidade fiscal e trabalhista, expondo tanto o pastor quanto a igreja a riscos de autuação e de questionamento sobre a natureza do vínculo. A relação entre pastor e igreja é espiritual: Deus chama, a igreja reconhece, examina, consagra e assume o compromisso de sustentar. Ao mesmo tempo, isso não deve ser desculpa para desproteção ou descaso; ao contrário, a autonomia da igreja local e a doutrina da mordomia exigem que a comunidade pense com seriedade e responsabilidade sobre como cuidar de seu pastor e de sua família, evitando tanto a “profissionalização” indevida quanto a negligência.

A responsabilidade denominacional no sustento pastoral

O cuidado com o sustento pastoral não é apenas uma questão de cada igreja local; é também uma responsabilidade das associações e convenções de igrejas batistas. Como expressões de cooperação e comunhão entre as igrejas, esses órgãos têm a oportunidade e o dever de orientar, incentivar e, quando possível, ajudar as congregações a cumprirem sua missão de sustentar dignamente seus obreiros.

Em primeiro lugar, a denominação pode incluir o tema nas revistas e materiais da Escola Bíblica Dominical, de modo que as igrejas sejam ensinadas, de forma sistemática, sobre a base bíblica e doutrinária do sustento pastoral, sobre a doutrina da mordomia e sobre a responsabilidade da igreja para com seus pastores. Da mesma forma, pode abordar a questão em suas redes sociais, revistas e no Jornal Batista, publicando artigos, estudos e testemunhos que ajudem a formar uma cultura de honra e de cuidado ministerial.

Os congressos, encontros regionais e assembleias também são espaços privilegiados para tratar do assunto, seja por meio de palestras específicas, seja em oficinas e grupos de estudo. Nessas ocasiões, é possível apresentar às igrejas padrões sugeridos, como um valor mínimo de prebenda a ser buscado como alvo, sempre levando em conta o contexto regional e o custo de vida local. Esse tipo de orientação não fere a autonomia da igreja, mas cumpre uma função docente e fraternal, indicando caminhos para que as comunidades amadureçam em sua mordomia.

Além disso, associações e convenções podem estabelecer estratégias para ajudar aquelas igrejas que, por limitações financeiras, não têm condições de sustentar dignamente seu obreiro. Isso pode ocorrer por meio de fundos de auxílio, parcerias entre igrejas maiores e menores, programas de apadrinhamento pastoral ou outras formas de cooperação. O objetivo não é substituir a responsabilidade da igreja local, mas fortalecê-la, para que, com o tempo, possa assumir plenamente o sustento de seu pastor.

Dessa forma, a denominação cumpre seu papel de servir às igrejas, não apenas em questões doutrinárias e missionárias, mas também no cuidado prático com o ministério da Palavra. Ao orientar e apoiar as congregações no sustento pastoral, associações e convenções demonstram que levam a sério tanto a Palavra de Deus quanto a Declaração Doutrinária da CBB, que afirma que o pregador do Evangelho deve viver do Evangelho e que às igrejas cabe cuidar e sustentar adequada e dignamente seus pastores.

Reposição da inflação e aumento real

O cuidado material com o pastor também se expressa na forma como a igreja lida com a passagem do tempo e com a economia. Em contextos de inflação, é comum que as igrejas ajustem anualmente o valor da prebenda, buscando preservar seu poder de compra. Essa prática de reposição inflacionária é uma forma concreta de não permitir que o sustento pastoral se desgaste gradualmente, sem que ninguém perceba, por simples efeito da economia. A igreja que entende o sustento como parte da sua mordomia procura, dentro de suas possibilidades, evitar que o pastor absorva sozinho o impacto das variações econômicas.

Algumas igrejas vão além da mera reposição e, conforme a sua saúde financeira e sua visão de honra, oferecem aumento real, seja em forma de reajuste mais generoso, seja ampliando benefícios. De novo, trata-se de aplicar o princípio da “dupla honra” e da liberalidade cristã: a igreja não busca apenas “cumprir tabela”, mas demonstrar, de maneira proporcional às suas condições, que valoriza o ministério da Palavra. Esse tipo de prática torna visível que o sustento pastoral é mais que uma obrigação mínima; é também oportunidade de expressar amor e gratidão.

Amor, respeito, obediência e honra

A relação entre igreja e pastor não se reduz ao aspecto financeiro. A Bíblia insiste que os crentes devem lembrar, respeitar e obedecer aqueles que velam pelas suas almas, considerando a responsabilidade que esses líderes assumem diante de Deus. Textos como Hebreus 13 e 1 Tessalonicenses 5 convocam a congregação a estimar muito os que presidem, admoestam e ensinam, por causa da obra que desempenham. Em outras palavras, o pastor, quando exerce fielmente seu chamado, é digno de amor, respeito, obediência e honra.

Na doutrina batista, o pastor é visto como servo de Deus, chamado para proclamar as Boas-Novas aos perdidos e apascentar os salvos, sempre sujeito à autoridade suprema das Escrituras. Ele não é mediador da salvação, nem figura acima da igreja, mas servo da Palavra e do rebanho. Por isso, a honra devida ao pastor não é culto à personalidade, e sim reconhecimento de que Deus o usa como instrumento para edificar os salvos. Amar o pastor, respeitá-lo, ouvir sua orientação e apoiá-lo é parte da resposta da igreja ao próprio Deus que o chamou.

Discernimento: bons pastores e “mercenários”

Ao mesmo tempo em que a Bíblia ordena honrar e sustentar o pastor, ela nos instrui ao discernimento. Há líderes que se mostram fiéis, que conservam a sã doutrina e vivem de maneira coerente com o Evangelho, e há outros que se revelam “mercenários”, preocupados mais com benefício pessoal do que com o cuidado do rebanho; pensam mais na lã do que nas ovelhas (Ez 34.2–3; Jo 10.12–13). O exemplo para o pastor é Cristo, o Bom Pastor, que dá a sua vida pelas ovelhas (Jo 10.11, 14–15), enquanto os mercenários, diante do perigo, fogem (Jo 10.12). Tanto o Senhor quanto Paulo alertam contra falsos mestres e lobos que se infiltram entre o povo de Deus (Mt 7.15–16; At 20.28–30), e as cartas pastorais descrevem em detalhes as qualificações necessárias para o presbítero (1Tm 3.1–7; Tt 1.5–9).

Doutrinariamente falando, na perspectiva dos batistas, a igreja local é autônoma, mas não autossuficiente; ela deve submeter tudo à Palavra de Deus e observar a Declaração Doutrinária da CBB, da qual é signatária. Isso significa que a mesma congregação que honra e sustenta seus pastores tem o dever de examinar sua vocação, doutrina e vida antes da consagração, e de praticar a disciplina quando um pastor se afasta da fé ou se torna motivo de escândalo (1Tm 5.19–20; Tt 3.10–11). Sustento, respeito e obediência não podem ser dados de forma acrítica, como se o título garantisse fidelidade automática. A honra é devida ao pastor que governa bem, se dedica à Palavra e vive de acordo com o Evangelho (1Tm 5.17; Hb 13.17); ao falso pastor ou ao mercenário, a igreja deve oferecer correção e, se necessário, afastamento, protegendo o rebanho (At 20.29–31; 1Jo 4.1).

Conclusão

A questão do sustento pastoral, à luz da Bíblia e da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, revela-se muito mais profunda do que um simples arranjo financeiro. Ela envolve a compreensão que a igreja tem de seu próprio chamado, de sua mordomia e de sua responsabilidade diante de Deus. Sustentar adequadamente o ministro da Palavra é reconhecer que o Evangelho não é uma mensagem abstrata, mas que exige pessoas chamadas, preparadas e dedicadas, que precisam de condições para exercer seu serviço com liberdade e foco.

Para as igrejas batistas, o desafio é viver essa responsabilidade com equilíbrio: afirmar o ideal bíblico de que o ministro do Evangelho deve viver do Evangelho, organizar prebenda e benefícios com sabedoria e amor, cuidar da reposição inflacionária e do bem-estar do pastor, e, ao mesmo tempo, cultivar discernimento, disciplina e fidelidade às Escrituras. Honrar pastores fiéis, sustentá-los e separar bons líderes dos mercenários não são tarefas secundárias, mas parte da própria vocação da igreja de ser comunidade da Palavra, que glorifica a Deus também na maneira como cuida de seus obreiros.


Fontes de Pesquisas:
- Declaração Doutrinária da Convenção Batista, disponível em: https://convencaobatista.com.br/site/pagina.php?MEN_ID=22
- Bíblia Sagrada, versão Almeida Corrigida Fiel

terça-feira, 25 de julho de 2023

Lidando com os falsos ensinos na igreja

Tratando os desvios doutrinários: protegendo a integridade da igreja

Lobo em pede de ovelha
Imagem gerada por IA
Pr. Cleber Montes Moreira

“Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho.”
(2 João 1:9)

Passei por uma igreja em que havia um diácono que tinha o hábito de ir ao hospital local para orar pelos enfermos. Ele impunha as mãos sobre os doentes e decretava a cura em nome de Jesus. Ao ser informado sobre essa prática, tive que chamá-lo e corrigi-lo. Era um homem simples e bem-intencionado, mas imaturo. Como tal, acatou prontamente as orientações pastorais. Mas nem sempre é assim, porque alguns preferem rebelar-se a se curvarem à verdade.

Faz alguns anos, em minha cidade natal, uma jovem, membro de uma igreja batista, foi diagnosticada com um câncer em estágio avançado. Ela estava em tratamento médico quando membros de uma seita pentecostal convenceram-na de que “os batistas não têm poder”. Iludida, a família deixou sua igreja para se unir àquele grupo e logo a cura da jovem foi declarada, bem como orientada a não precisar mais se submeter ao tratamento médico. Não demorou muito, e a doença levou aquela jovem, para o desapontamento de sua família.

Aqueles que se consideram crentes, mas se desviam do evangelho genuíno, acabam compartilhando com outros um falso evangelho que lhes dá uma esperança ilusória: falsas curas, revelações enganosas (chamadas de “profetadas”), falso poder e até mesmo uma falsa salvação. O resultado disso é a decepção, pois o que é oferecido sob a embalagem do evangelho é, na verdade, uma falsificação barata e ineficaz, que não leva a uma vida com Deus.

É terrível que alguns que se desviam da fé tenham liberdade para agir livremente no meio das igrejas, levando outros crentes ao engano e causando tantos males. Geralmente, eles tendem a liderar outros, formando grupos que se reúnem em casas ou saem para “evangelizar”, orar ou realizar outras atividades que vão contra a doutrina e as práticas das igrejas saudáveis. Quando o pastor tem conhecimento disso e não age, ou ele compartilha da mesma visão errônea, ou está sendo irresponsável.

Um pastor relatou que em sua igreja uma irmã, professora da Escola Bíblica Dominical, começou a ensinar heresias sobre a doutrina do Espírito Santo. Diante da situação, ele teve que orientar a igreja e assumir o ensino em forma de classe única durante aquela série de estudos, afastando a irmã que não estava capacitada para aquele ofício. Ela também precisava aprender.

Entendo que aqueles que estão iludidos por uma falsa crença, desviados do evangelho genuíno, têm duas opções: ou se sentarem humildemente para aprender (porque não estão em condições de liderar nem ensinar), ou deixarem suas igrejas, para não causarem maiores problemas, e buscarem outro grupo com o qual se identifiquem. Infelizmente, muitos não agem assim e preferem impor suas convicções, causando tristezas, desapontamentos e até divisão nas igrejas.

João nos adverte: “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto o Pai como o Filho” (2 João 1:9). Na língua portuguesa, prevaricar significa “deixar de cumprir uma obrigação, um dever”. A palavra grega traduzida por “prevarica” significa, dentre outras coisas, “negligenciar, violar, transgredir; ir ao ponto de desviar-se de; abandonar a verdade”.

Um herege é aquele que descumpre a Palavra de Deus, omitindo ou extrapolando a doutrina, abandonando a verdade. No contexto de 1 João, o escritor está se referindo àqueles que negam que Jesus veio em carne (v. 7), mas, de forma geral, pode referir-se a qualquer um que profere um ensino falso. A conclusão que João nos apresenta sobre os hereges é que eles não têm a Deus, mas aquele que “persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto o Pai como o Filho”.

Um crente sincero, que esteja ensinando errado por ignorância ou má influência, necessita ser orientado. Ele não pode ensinar; primeiro deve aprender e crescer no conhecimento da Palavra de Deus. Já um membro rebelde, obstinado no erro, que deliberadamente insiste em contaminar a igreja com falsos ensinos, precisa ser desligado para evitar um mal maior. O correto é que as igrejas adotem critérios mais rígidos na escolha de pessoas para o ensino e a liderança em geral, evitando colocar novos crentes nessas posições, bem como avaliando melhor os demais. Também é preciso ter atenção aos movimentos e à formação de certos grupos em torno de pessoas que podem desviar outros da fé e causarem divisões. Aqueles que assim agem “não têm a Deus” e devem ser tratados como lobos, e não como ovelhas. Pense nisso!

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Pastores batistas para igrejas batistas

Resgatando a identidade: cuidando de si mesmo e da doutrina em tempos de apostasia

Identidade bíblica
Imagem: Freepik

Pr. Cleber Montes Moreira

“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem.” (1 Timóteo 4:16)

O título deste artigo não é meu; eu o tomei emprestado de uma publicação no site da Convenção Batista do Pará, que menciona algo sobre a “formação de líderes denominacionais”1. Creio que neste tempo de confusão e apostasia, ele reflita, mais do que em qualquer outro momento, uma necessidade imperiosa para nossas igrejas: pastores verdadeiramente batistas para igrejas batistas.

Assim como uma igreja batista, um pastor batista deveria ser reconhecido inequivocamente quanto às suas convicções e práticas, mas infelizmente isso já não é mais tão evidente. Em relação à denominação, tenho percebido o crescimento no número de pastores que deixaram de lado a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, rejeitando o documento ao qual um dia se comprometeram a ser fiéis. Pior que isso, abandonaram a Bíblia como sua única regra de fé e prática, seu principal instrumento de trabalho, e que deveriam manejar bem (2 Timóteo 2:15), e passaram a orientar seus ministérios por outras fontes e crenças, levando suas igrejas por esses mesmos caminhos.

Soube de um pastor batista que, durante uma conversa entre colegas, confidenciou sua dúvida sobre a forma correta do batismo: imersão ou aspersão. Ele afirmou não estar plenamente convencido de que o batismo bíblico seja por imersão e citou vários estudiosos que defendem a aspersão como o modo correto. Curiosamente, nesse momento, ele não fez referência a textos bíblicos, demonstrando assim mais confiança nos “especialistas” ou, como diria Silvio Santos, nos “universitários”, do que na Palavra de Deus. Ainda outro pastor batista muito conhecido divulgou um curso bíblico em que, na propaganda, chamou as ordenanças de “sacramentos”. Não é surpresa que alguns estejam se “convertendo” à velha religião idólatra. É o que mostram alguns sites e perfis nas redes sociais dedicados a publicar “testemunhos” de ex-evangélicos que se converteram ao catolicismo, dentre os quais há muitos oriundos de denominações que surgiram a partir do movimento reformista.

Numa postagem no Instagram, um ex-pastor, mas ainda tratado como tal, membro de uma igreja batista e liderando Pequenos Grupos, afirma que a crença na inerrância da Bíblia é idolatria. Em um vídeo anterior, ele já havia dito que não lê a Bíblia, mas sim lê Jesus. No seu entendimento, quem quer ler algo inerrante deve ler Jesus de Nazaré. No entanto, ele não considera que não é possível ler Jesus sem ler a Bíblia, da qual Jesus é o centro. Parece-me que isso tem se tornado um expediente comum daqueles que querem manter o status, sem, no entanto, abrir mão da apostasia da fé. São lobos, mas se vestem de ovelhas para não causar pânico no rebanho. Jesus mesmo nos alertou que esses “falsos profetas” viriam até nós “vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores” (Mateus 7:15).

Assim como os apóstolos apresentaram Jesus a partir da exposição fiel das Escrituras, é por meio da Bíblia que O apresentamos ao mundo (Atos 2:16-36; 8:35; 18:28; Gálatas 3:8,9). O próprio Senhor se revelou como aquele anunciado nas Escrituras (João 7:38; Lucas 24:44-48). Também os escritores neotestamentários apresentaram Jesus a partir da mesma fonte, as Escrituras sagradas, bem como ensinaram com base nelas, reconhecendo sua inspiração e inerrância (Romanos 1:1-6; 10:11; 1 Coríntios 15:4; 2 Timóteo 3:16,17). Portanto, não é possível ler Jesus ou anunciá-Lo colocando nossa Bíblia de lado ou relegando-a a um papel secundário. Um evangelho desprovido da Bíblia será um evangelho sem Jesus! E quanto à sua procedência, sabemos qual é.

Essas afirmações infelizes, como a do “pastor” acima referido, estão relacionadas a outras que têm surgido, nas quais vemos alegações de que a Bíblia está repleta de mitos, que necessita de atualização ou até mesmo de ser reescrita. Geralmente, essas declarações são feitas por líderes liberais, que rejeitam ou reinterpretam certos textos bíblicos, como os escritos de Paulo, alegando que eles refletem uma cultura patriarcal, são misóginos, homofóbicos, entre outras coisas. Eles consideram qualquer (re)leitura que possa validar seus pressupostos, enquanto procuram deslegitimar a verdade e atacar aqueles que se dispõem a orientar biblicamente o rebanho de Deus. Com base em seus ensinamentos, estão edificando uma “igreja” que, obviamente, não é a igreja de Cristo.

A partir de sua desconexão da Palavra de Deus, pastores têm assumido posições e práticas estranhas, dentre as quais menciono algumas: práticas pentecostais, abandono da disciplina, ecumenismo, sermões sem base bíblica, sermões de autoajuda/coaching, normatização de práticas pecaminosas, ensino do universalismo etc. Cito abaixo alguns exemplos:

(1) Pastores batistas falando em “línguas estranhas”, pregando uma “segunda bênção”, indo “orar no monte” e adotando outras práticas não comuns entre os batistas;

(2) Uma pastora batista da CBB, em uma live para uma igreja inclusiva, em sua saudação utilizou a linguagem neutra: “Todos, todas e todes”;

(3) Pastores batistas que, durante a pandemia do Coronavírus, praticaram ceia e batismos online;

(4) Igrejas batistas realizando eventos ecumênicos, inclusive com a participação de padres e outras autoridades religiosas no louvor, na pregação e na “bênção apostólica”;

(5) Pastores batistas alinhados às ideologias políticas que defendem o aborto, a ideologia de gênero, o controle da mídia etc.;

(6) Um pastor batista afirmou, durante uma pregação, que a igreja precisa discutir a inclusão de pessoas LGBTQIA+ em sua membresia;

(7) Um diretor de um seminário batista (que pediu demissão recentemente) publicou uma série de vídeos para a família nos quais ele considera a prática homoafetiva como normal. Ele justificou sua posição através de uma “releitura” de vários textos da Bíblia;

(8) Pastores dando um novo sentido aos “Princípios Batistas”, especialmente no que diz respeito à liberdade, trabalhando com sutileza para solapar a sã doutrina;

(9) Pastores levando suas igrejas à perda da visão missionária e ao estabelecimento da concorrência entre igrejas coirmãs, como quando uma igreja abre uma congregação ou filial (rede de igrejas) próxima a outras igrejas já estabelecidas;

(10) Algumas igrejas ainda filiadas à CBB, por razões de marketing ou por terem perdido sua identidade doutrinária, estão removendo o nome “batista” de suas fachadas, razão social e documentos em geral.

O enfraquecimento eclesiológico e os desvios doutrinários têm afetado gravemente a identidade denominacional. Ao lermos uma placa que diz “Igreja Batista”, já não temos certeza do tipo de culto que é praticado ali. Não sabemos se essa igreja ainda é verdadeiramente batista ou se já foi contaminada. Restaurar essa identidade é um desafio árduo e, infelizmente, nem sempre há disposição para realizá-lo.

É necessário que as igrejas (e toda a denominação) estejam empenhadas em resgatar a identidade batista por meio de uma eclesiologia e prática doutrinária bíblica. Tenho observado, com tristeza, a facilidade com que certos pastores desviam igrejas que antes eram fiéis à Palavra de Deus.

Diante do quadro exposto (de forma resumida), deveríamos adotar o seguinte lema: “Pastores batistas para igrejas batistas”. Ainda existem muitas igrejas sérias que, durante um momento de transição pastoral, devem estar atentas e buscar um pastor verdadeiramente batista. Isso requer, além de orações e a observância dos critérios bíblicos, uma avaliação minuciosa do candidato. Por outro lado, existem muitos pastores batistas fiéis que não encontrarão espaço em uma igreja cujo perfil já não condiz com o seu. Além disso, a formação de novos pastores comprometidos com a sã doutrina é uma necessidade urgente, tanto para atender às igrejas quanto para resgatar a identidade denominacional. Por isso, precisamos cada vez mais de seminários cujo foco esteja na capacitação de vocacionados e na formação de obreiros, e não de “profissionais da fé”.

Ao escrever sobre a apostasia dos últimos tempos, Paulo recomenda a Timóteo o cuidado e a perseverança na doutrina. Ele deveria se agarrar a ela firmemente, se aplicar ao seu estudo e pregação. Essa é a mais nobre tarefa do pregador: impregnar-se da Palavra de Deus — inspirada, inerrante e suficiente —, defendê-la e proclamá-la como a verdade. É da ausência dessa convicção e desse trabalho que tem resultado a apostasia da fé. Todavia, é a convicção e a prática recomendadas por Paulo o instrumento para a direção firme do povo de Deus e para a salvação dos pecadores.

Como batistas, somos considerados “o povo da Bíblia”. Para continuarmos merecendo esse título, não devemos nos afastar jamais das Escrituras. É preciso que cada pastor batista cuide de si mesmo e da doutrina, e que assim também o façam os irmãos. Que este santo zelo nos leve a considerar o que significa “pastores batistas para igrejas batistas”, a fim de que nenhuma igreja seja perturbada, ou mesmo afastada da Bíblia, por um líder infiel.

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1 https://www.cobapa.org.br/portal/a-consolidacao-e-o-avanco-da-coordenadoria-da-cobapa-no-baixo-amazonas/ (acessado em 07 de junho de 2023)

quarta-feira, 24 de março de 2021

Pastores e o “Armário Teológico”

Teólogos, pastores e líderes há que abandonaram a teologia conservadora e as interpretações bíblicas históricas; eles assumiram publicamente novas convicções, trocaram a fé tradicional pela chamada Teologia Inclusiva, e adotaram um novo posicionamento em relação a temas basilares da fé cristã. Outros, porém, por algum motivo, continuam no “armário teológico”

armário
Imagem: Unsplash
Pr. Cleber Montes Moreira

“Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela…”(2 Timóteo 3:5)

A expressão “sair do armário” é tradução da gíria americana “come out of the closet”, que teria surgido a partir de outras duas expressões. Nos séculos 19 e 20, “come out” (“sair”, “surgir”, “se revelar”) era usado quando os pais organizavam os famosos bailes de debutantes que serviam para apresentar as adolescentes à sociedade. Era nestas festas de quinze anos que as meninas “se revelavam” adultas. Já a expressão “skeletons in the closet” (“esqueletos no armário”) era usada como sinônimo de algum segredo vexaminoso. Foi assim que “come out of the closet” passou a ser uma metáfora para aqueles que assumiam a homossexualidade, ou, como se diz hoje em dia, a sua “orientação sexual” ou “identidade de gênero”.

Creio que “sair do armário” seja uma expressão também adequada para ser usada em relação àqueles que resolveram sair do “armário teológico”, ou seja, abandonaram a teologia conservadora e as interpretações bíblicas históricas e assumiram publicamente outras convicções. Muitos líderes e autoridades religiosas — teólogos, pastores, padres etc. — têm trocado a fé tradicional pela chamada Teologia Inclusiva. Adotaram um novo posicionamento em relação a temas como pecado, arrependimento, novo nascimento, amor, justiça etc., e passaram a sustentar um discurso complacente em relação a certos valores e comportamentos. Algumas práticas antes consideradas pecaminosas agora são aceitas como sendo normais, dentre elas comportamentos (ou “orientações”) sexuais alternativas ao padrão tradicional. Para fundamentar “biblicamente” tais padrões resolveram ignorar, revisar ou ressignificar certos textos bíblicos e estabeleceram uma nova hermenêutica em que a Bíblia passou a ser interpretada não mais a partir da perspectiva de Seu Autor, mas das experiências, anseios e conveniências humanas. Eles passaram a fazer a “leitura pública da Bíblia” que consiste em sua interpretação a partir de certos grupos sociais: LGBTs, mulheres (feministas), negros, indígenas e outros, sempre tratando de adequar os “mandamentos” às suas demandas. Certos textos, principalmente dentre os escritos paulinos, passaram a ser considerados “interditivos” de mulheres e homossexuais. Por esta nova leitura a Palavra de Deus deixou de ser normativa, e assumiu posição de submissão à Teologia Inclusiva para servir às suas finalidades.

Estes pastores que saíram do armário teológico, porque adotaram uma postura “politicamente correta” têm encontrado espaço na mídia e atraído multidões. Para os pecadores nada melhor que este “evangelho” que ao mesmo tempo em que autoriza o viver na carne aplaca suas consciências em relação a Deus. É como se a Nicodemos não tivesse sido dito “que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3), nem à mulher adúltera “vai-te, e não peques mais”, (João 8:11), ou que João Batista e Jesus não tivessem iniciado seus ministérios com uma exortação ao arrependimento (Mateus 3:3; 4:17), ou ainda que não houvesse nas Escrituras nenhuma exigência à santidade, porque à luz desta teologia, como seus expoentes ensinam, o único pecado é “não amar”.

Muitos pastores que têm saído do armário teológico expõem suas ‘convicções inclusivas’ a partir de seus púlpitos e por meio de todas as mídias possíveis; escrevem livros, promovem congressos e festivais, criam páginas e blogs onde publicam seus textos, coordenam movimentos etc. Geralmente investem e conseguem exercer grande influência sobre os mais jovens. Por isso muitas igrejas com perfil histórico se desviaram da Sã Doutrina, se desligaram ou foram desligadas de suas denominações, e passaram a interagir com outras igrejas e movimentos inclusivos. Outras ainda estão no rol de denominações históricas, mas sem compromisso doutrinário e teológico. É o caso de algumas igrejas onde pastores inclusivos, LGBTs, teólogos feministas, defensores do aborto, dentre outros, têm trânsito livre para pregar e ensinar.

Apesar da naturalidade como alguns pastores estão “saindo do armário” — de fato perderam a vergonha —, há outros que, mesmo abraçando tais convicções, não tiveram, ainda, a mesma coragem. Eles continuam no “armário teológico”. Alguns, talvez, estejam também naquele outro “armário”. Sei de pastores que não tendo assumido publicamente a Teologia Inclusiva procuram se cercar de ministros auxiliares (indicados por eles mesmos) e líderes inclusivos. Alguns encenam uma performance conservadora, porém agem sutilmente por meio de seu corpo de líderes para perverter a doutrina e desviar suas igrejas — tudo é uma questão de tempo. Por que eles continuam no armário? Talvez não haja uma única resposta, mas, provavelmente, por alguma conveniência ainda não tenham “se revelado”: porque estão numa zona de conforto, pastoreando boas igrejas e ganhando ótimos salários; porque ocupam cargos denominacionais e fazem de sua posição instrumento de militância (ainda que velada); porque não querem se indispor com líderes conservadores na igreja ou denominação; porque “ainda não é hora”; ou por outros motivos.

Os pastores (e outros líderes) inclusivos que ainda não “saíram do armário”, por causa de sua dissimulação — muitos até travestidos de conservadores —, são um enorme perigo porque que agem de modo articulado e estratégico, quase que imperceptivelmente, para desconstruir valores e apresentar às suas igrejas, por meio de um discurso suave e “contextualizado”, um “evangelho” palatável e adequado às suas convicções e intenções sórdidas. Tenham cuidado, “pois certos homens, cuja condenação já estava sentenciada há muito tempo, infiltraram-se dissimuladamente no meio de vocês. Estes são ímpios, e transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único Soberano e Senhor” (Judas 1:4 — NVI).

Em setembro de 2019

segunda-feira, 1 de março de 2021

Apenas cumpra o seu ministério

Há líderes que se esforçam demasiadamente para elaboração de estratégias de crescimento e multiplicação, e se esquecem da responsabilidade de criar um ambiente propício à ação do Espírito Santo na medida em que, obstinados pelo crescimento, desprezam o compromisso e o ensino da Sã Doutrina

 

“Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento.” (1 Coríntios 3:6,7 — grifo do autor)

Pr. Cleber Montes Moreira

No início de meu ministério comprei alguns livros sobre “como fazer sua igreja crescer”. Sinceramente que pensava poder fazer algo sobre isso. Li livros e matérias diversas sobre o assunto. Ainda hoje noto os modelos de gestão e estratégias de crescimento que estão em voga, tidas por alguns como a “nova invenção da roda”. Com o tempo percebi que esta é uma intenção inútil, por mais honesta que seja. Assim como não podemos acrescentar um centímetro à nossa estatura (Mateus 6:27), tampouco fazer uma criança crescer, a não ser criar um ambiente e condições favoráveis à saúde, também não podemos fazer a igreja crescer a partir de nossa capacidade. O grande problema que vejo é que estamos confundindo os papéis no processo de crescimento: “somos cooperadores de Deus” (v. 9) e não deuses; nossa tarefa é plantar e regar, ou seja, alimentar e sustentar os cristãos com a pregação do evangelho genuíno, todavia, o crescimento, é Deus quem dá. É como o lavrador cujo trabalho é observar as estações, preparar a terra, semear e cuidar da lavoura, sabendo que quem faz a semente germinar e crescer é o Criador, utilizando de leis da natureza que Ele mesmo estabeleceu.

O problema de alguns líderes de hoje é que eles se esforçam demasiadamente para elaboração de estratégias de crescimento e multiplicação, tarefa que compete a Deus, e se esquecem da responsabilidade de criar um ambiente propício à ação do Espírito Santo na medida em que, focando no crescimento, desprezam o compromisso e o ensino da Sã Doutrina. Dessa forma, o resultado que conseguem é meramente numérico, decorrente de adesões e não de conversões. A consequência são igrejas cheias de membros carnais, tendo pastores humanos e não a Cristo por cabeça, manejados por metodologias e estratégias seculares e não pela Palavra da Verdade, guiados por “visões” e não pelo evangelho.

Se você é pastor e quer cooperar para o crescimento da igreja local, apenas plante e regue: pregue a Palavra com integridade, a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina, seja sóbrio em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um pastor e de um evangelista, cumpra fielmente o seu ministério, e creia que Deus fará a sua parte (Leia 2 Timóteo 4:5).

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